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Conheci a dona Lavika num daqueles dias escaldantes e contraditórios que costumamos ter aqui na foz do Amazonas: água por todo lado, mas com um calor palpável, sufocante. Viajamos de voadeira pilotado por Lindomar, jovem navegante, profundo conhecedor das águas da Caviana. Conheci Lindomar durante a pesquisa inicial para o documentário Alô, alô Amazônia. Foi ele quem escreveu a carta pedindo ao vereador a devolução dos pregos da igreja que estava sendo construída na pequena comunidade de São Sebastião do Rio Arrozal. Posso dizer que foi com essa carta inusitada – e o desejo de conhecer a história por trás dela – que tudo começou. Foi do Rio Arrozal, cinco horas de viagem de Macapá, que partimos para Rio Itaboca, mais uns quarenta minutos batalhando as ondas bravas da grande foz.

Lavika morou sozinha com seu marido numa típica casa de caboclo na beira do Itaboca. Costumo dizer “sozinha”, porque cria de cidade que sou, consigo me sentir só em Macapá…. imagina ela, penso eu. Mas ela foi enfática. Não se sentia só, nem triste. Não deixaria seu lugar para nada.

Quando a gente chegou, Lavika estava na cozinha da casa – uma puxada cercada por açaizeiros e limoeiros – acompanhada pela programação da Rádio Difusora de Macapá. Suas ondas das bandas média e tropical alcançam um raio de mais de 600km, ligando o caboclo da região com Macapá e com seus amigos e familiares espalhados pelas ilhas e igarapés da delta do Amazonas. Foi assim que Lavika – morando sem energia e muito menos telefone – sabia da nossa vinda.

Conversamos enquanto ela preparava o almoço do dia. Peixe frito, camarão salgado, tudo tirado do rio não muito longe de lá. Almoçamos juntos no chão da cozinha. Nos sentimos, por um dia, gente da casa.

No século dezoito, a coroa portuguesa investiu na instalação de povoamentos para marcar domínio da região na face de ameaças de invasão pelos franceses e holandeses. Foi assim que nasceu Macapá, com sua majestosa Fortaleza; Mazagão, uma cidade toda trazida da África; Santarém. Talvez a estratégia foi acertada. Afinal, a Amazônia nunca foi invadida. Mas para mim, os verdadeiros heróis dessa história de ocupação dessa última fronteira são os ribeirinhos, caboclos da Amazônia como Lavika e seu marido. Dado o mínimo de condições – acesso a suprimentos básicos, serviços de saúde quando precisa, educação para sues filhos – eles estão muito contentes de ficar onde estão, tirando sustento do rio e da floresta. Marcando presença. Declarando, com sua persistência: Estamos aqui. Somos brasileiros. Essa terra é ocupada. Dessas terras, das mãos desses caboclos, vem uma boa parte do nosso camarão, a maior parte do açaí que abastece as nossas mesas.

“Persistente” é um adjetivo que me parece descrever bem a dona Lavika. Apesar da insistência do seu filho único, Rogério, pra que ela viesse morar com ele em Macapá, ela ficou onde se sentiu mais em casa. Mesmo quando ficava doente e precisava vir para à cidade em procura de tratamento, voltou para rio Itaboca assim que possível, em vez de ficar na fila do hospital. Voltou para cuidar da sua casa, seus bichos, seu velho.

Eu a vi de novo, pela primeira vez desde aquela visita em 2006, no dia que ela estava em Macapá atrás de tratamento, mas já senti que a conhecia  profundamente. Para mim, ela chegou a incorporar todos os ribeirinhos – todos aqueles caboclos persistentes – que conheci nesses últimos anos trabalhando com documentário na região. Foi também a última vez. Lavika faleceu na virada do dia 27 de junho do câncer no pulmão, aos 77 anos.